3 de Dezembro de 2011

Tribunal Eclesiástico analisa alegada burla de padre

Um ex-seminarista diz-se burlado por um jovem padre do Alto Minho e antigo amigo, no valor de 20 mil euros, mas o sacerdote nega o facto, tendo o processo entrado no Tribunal Eclesiástico de Viana do Castelo, confirmou fonte oficial.

«Se queres ter um amigo, não lhe emprestes dinheiro», diz à Lusa Marco Ribeiro, ex-estudante no Seminário Menor de Braga, assumindo que a amizade divina que o uniu ao padre André Filipe Gonçalves durante a última década foi destruída em Julho 2010 pelo vil metal.

Depois de terem partilhado os ensinamentos de Cristo na cidade de Braga - Filipe André estudou no Seminário Conciliar - Marco Ribeiro, de Gamil, Barcelos, abandonou os estudos eclesiásticos e negoceia hoje no ramo imobiliário, mas diz que terá sido por acreditar mais nos caminhos do Senhor do que nos terrenos que a desgraça lhe bateu à porta.

Tudo porque no início de 2010 entregou ao padre Filipe André 25 mil euros, oriundos «de uma venda imobiliária», pois o amigo pároco tinha-lhe dito que na residência paroquial havia um cofre de «60 quilos», que ninguém conseguiria roubar.

A verdade é que meses depois, a maior parte do dinheiro se «evaporou», não porque tivesse sido roubado o cofre, que continuava intacto na residência paroquial, ou porque tivesse sido forçado. Simplesmente o dinheiro desapareceu e, até ao momento, ninguém acha que seja por milagre ou obra do diabo.

Marco Ribeiro desconfia que Filipe André, 29 anos, nomeado padre em 2007 e a exercer sacerdócio em quatro paróquias de Arcos de Valdevez, Viana do Castelo, cedeu à tentação.

Já o padre Filipe André recusa qualquer insinuação e chegou a apresentar queixa na GNR local por difamação.

Por explicar continuam vários pormenores. Se é estranho que Marco Ribeiro preferisse entregar os 25 mil euros da venda imobiliária ao amigo padre, em vez de os depositar num qualquer banco – «não confio nos bancos, já viu o que aconteceu no BPN e no BPP», diz - é igualmente bizarro que Filipe André se tenha recusado sempre a apresentar queixa na polícia, quando verificou que o dinheiro havia desaparecido do cofre.

O padre Filipe André não tem a mesma aversão aos bancos do que o ex-amigo Marco Ribeiro e terá sido isso que salvou cinco mil euros, dos 25 mil iniciais, porque fez uma aplicação financeira, que posteriormente devolveu a Marco Ribeiro. Dos restantes 20 mil nada se sabe.

Conversas pouco católicas e algumas mensagens por telemóvel nada sagradas e a roçar o obsceno – que Marco Ribeiro guarda num extenso dossier sobre o assunto a que a Lusa teve acesso – pouco esclarecem a alegada burla e até motivaram queixas de parte a parte junto das autoridades policiais.

«O Marco Ribeiro fez uma queixa de burla contra mim na GNR de Barcelos, mas eu nem fui chamado», assumiu à Lusa o padre André Filipe Gonçalves.

Fonte judicial ligada ao processo adiantou que a queixa «foi arquivada em Janeiro de 2011».

O padre, por seu turno, entregou uma queixa-crime na PSP de Viana do Castelo contra Marco Ribeiro, acusando-o de atentar contra a liberdade pessoal (extorsão).

Meses depois, o padre desistiu da queixa contra o antigo amigo.

«Retirei, porque não queria que o caso chegasse ao tribunal. Para mim o assunto está arrumado», explicou à Lusa, escusando alongar-se mais sobre o assunto.  O caso pode estar parado nas instâncias judiciais civis, mas deu entrada, este mês, no Tribunal Eclesiástico de Viana do Castelo.

«O documento vai ser estudado pelos dois presidentes do Tribunal Eclesiástico de Viana do Castelo», confirmou à Lusa o padre Reis Ribeiro.  Antes, já Marco Ribeiro insistira com cartas para o bispo de Viana do Castelo, algumas delas registadas. O bispo não respondeu, nem vai responder, assumiu à Lusa o vigário Vasco Gonçalves.

O processo deu entrada nos últimos dias no Tribunal Eclesiástico de Viana do Castelo, órgão que terá a árdua missão de desvendar que caminho levaram os 20 mil euros e quem os fez desaparecer.  Marco Ribeiro não espera milagres, mas tem confiança de que, mais cedo ou mais tarde, «seja dado o seu a seu dono».

«Todo aquele que rouba está obrigado, além de confessar, a restituir o que foi mal adquirido e reparar os danos causados», argumenta Marco Ribeiro, citando o sétimo Mandamento, que diz «Não Roubarás».

Os envolvidos no caso gostariam com certeza de ver a ressurreição dos 20 mil euros no cofre da Casa Paroquial de Arcos de Valdevez, mas para já só o Tribunal Eclesiástico de Viana do Castelo pode contribuir para esse milagre. (Fonte: Lusa / SOL)